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Um eterno desconforto, “a la Madame Bovary

Escuto muito dizer que venho de uma geração de insatisfeitos. Uma geração que se cansa rápido das coisas, que não aguenta frustrações e busca sempre o satisfatório em primeiro lugar. O karma da geração Y. Talvez seja verdade. Tenho diversos amigos que casaram, com direito a festa, vestido e buffet e, em pouquíssimo tempo, se separaram, afinal, passou a emoção, o frio na barriga. Imperou a rotina. Quem se apaixona pela rotina? Algo parecido acontece com a profissão, o trabalho, estilo de vida… Será que nossos antepassados também não se cansavam da rotina mas, apenas, iam na onda do comprometimento e viviam o que se dispuseram com "até que a morte os separe"? Estavam certos eles? Devemos nos conformar com uma eterna mediocridade monótona ou, devemos, de fato, buscar o intangível êxtase da instabilidade eletrizante? Vivemos um eterno desconforto “a la Madame Bovary”, decepcionada com ilusões criadas por ela mesma? Imersa nessa geração me abstenho da resposta. A questão é, Flaubert falou disso há quase 200 anos, mas este retrato de um insaciável ensimesmamento é cada vez mais atual.


O curta-metragem "Próximo Piso" (Next Floor), de 2008 do canadense Denis Villeneuve, retrata um pouco isso. Em um absurdo banquete quase ritualístico, grotesco e alegórico, comensais esganados, envolvidos em uma gula intensa, glutônica e autocentrada, são incapazes de empatia, de movimento, de realização, mesmo em meio a um agressivo declínio de seu entorno.


Claro, o filme trata esse tema de forma bastante surrealista e exacerbada em prol da dramaturgia. Mas, principalmente hoje, devemos nos lembrar de olhar ao redor. Temos a chance (ou obrigação) de pensar no entorno, no próximo, no ambiente. Será que, quando tudo isso passar e o senso de pânico e coletivismo forem esquecidos, vamos continuar buscando incessantemente a satisfação pessoal de forma tão individualista e gananciosa? Temos uma oportunidade aqui, agora, de um olhar macro, de uma pausa para rever, antes de tudo, nossos próprios umbigos (ou como disse @antonioprata "nossos próprios narizes"). De repensar a tamanha gula pelo consumo desenfreado e pela satisfação a qualquer custo, antes que cavemos, de maneira literal, nosso próprio declínio.




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