Sobre comer insetos

Embora uma ideia que ainda revire estômagos, principalmente no Ocidente, o consumo de insetos é algo que - dizem - deve constituir uma parte importante da nossa alimentação no futuro. Mas, de fato, esse nutritivo e proteico alimento não é coisa futurista: consumidos há milhares de anos, come-se hoje mais de 2 mil espécies de insetos na América Latina, Ásia e África.


Quando fui para Tailândia, não faltava nas inúmeras - e ensandecedoras - feiras de rua, barraquinhas de tudo quanto é tipo de inseto. Relutante, provei mesmo assim, afinal, "ta na chuva, é pra se molhar". A maioria tem o sabor do tempero de seu preparo, talvez em abundância para ganhar mais adeptos dessas iguarias.


Grilos, gafanhotos, escorpiões, larvas de tudo quanto é tipo. No Brasil, estamos mais habituados ao consumo de formigas. Sim, mesmo que soe estranho pra você, as Içás, por exemplo, a rainha das formigas saúvas (ou tanajuras), são consumidas por povos indígenas há milhares de anos, e ganharam o gosto dos colonizadores que aqui chegaram, tornando-se petisco corriqueiro de uma São Paulo antiga, vendidas em tabuleiros. Hoje, tradicional na culinária vale-paraibana, “o caviar da gente caipira” como dizia Monteiro Lobato, são caçadas costumeiramente nas primeiras trovoadas da primavera, quando saem em revoadas de acasalamento. Famosas também ficaram as formigas saúvas com sabor cítrico, que lembra capim limão, conhecidas como amazônicas, embora existam em diversos lugares do Brasil.


Assisti esses dias o documentário "Nsenene", da diretora Michelle Coomber, sobre a tradição da caça a gafanhotos em Uganda. Nsenene, gafanhoto em luganda, é muito consumido na região, frito com cebola, pimentas e outros temperos. Grande fonte de renda para muitos ugandenses, caçá-los é uma tradição de longa data durante as estações mais chuvosas. Capturados através de luzes brilhantes que atraem enxames dos animais, são embriagados com uma forte fumaça estratégica, caem assim sobre chapas de metal, onde são capturados e levados para o preparo. Filme de 7mins, vale a pena assistir e conhecer mais sobre esse tradicional - e desafiador - ofício ensinado através de gerações.