Lavar as mãos: da Idade Média a tempos pandêmicos

Lavar as mãos nunca foi tão importante como no último ano. Mas, não é de hoje que lavar a mão é um ritual diário e extremamente importante. Desde a Idade Média, lavar as mãos antes e depois das refeições era um sinal de educação entre reis e camponeses.


✋Originado por necessidade, uma vez que a maioria das pessoas comia com as mãos (garfos apenas se popularizaram no séc XVIII, embora tenham sido inventados bem antes disso) ou sobre trenchers, grandes fatias de pão, lavar as mãos antes e depois das refeições começou como um ato de higiene e evoluiu para sinônimo de poder e riqueza.


🖐Os rituais de lavagem das mãos na elite medieval tornaram-se elaborados e ostentosos: “Que seus dedos estejam limpos e suas unhas bem cuidadas”, exigia o Les Contenances de Table, texto do sécXIII sobre bons modos à mesa.


🤴Ao jantar com um rei, os convidados eram conduzidos ao lavatório com luxuosas bacias, toalhas brancas e água perfumada. O objetivo era secar as mãos na toalha sem deixar marcas de sujeira - motivo pelo qual as mulheres já lavavam as mãos antes de sair de casa, garantindo assim, que não sujariam as toalhas, uma prova de virtude e pureza. Quando todos estivessem dispostos no salão, se iniciava a triunfal lavagem de mãos do rei, com convidados de pé, observando atentamente. Uma vez terminado, todos finalmente podiam sentar. Os banquetes medievais eram grandes demonstrações de poder: a posição da mesa, dos lugares, a comida que era servida a cada convidado - o objetivo final era deixar clara a soberania do monarca.


🧼Esses rituais trouxeram rebuscados objetos para o dia-a-dia medieval: diferentes jarras ornamentadas para a lavagem, as aquamanile (do latim, aqua e manus) e o descobrimento do luxuoso sabão de Aleppo, trazido da Síria (o berço da saboaria), feito com azeite de oliva e óleo de louro. Com o tempo, franceses, italianos, espanhóis e ingleses começaram a fazer suas próprias versões do sabão, o que originou os famosos sabonetes de Marselha e Castela.


🍴Com a popularidade do garfo, alcançada no séc XVIII e perpetuada no XIX, a força do pomposo ritual de lavagem das mãos começou a desaparecer, mantendo-se apenas como um hábito de higiene até os dias de hoje.




Foto: lavatório de c. 1400.

Foto: aquamanile medieval da coleção do MET em NY

Foto: aquamanile medieval da coleção do MET em NY


Foto: Ilustração de dispositivo para lavar as mãos em forma de pavão de 1315

Foto: aquamanile medieval da coleção do MET em NY