Comidas que abraçam e a história do estrogonofe

Nos últimos dias recebi muitas mensagens pedindo indicações de comidas "que abraçam".


Onde pedir e como fazer coisas como pudim, arroz doce, lasanha, estrogonofe. Há uma semana eu tb fiquei com um desejo incontrolável de estrogonofe. Talvez precisasse comer algo com sabor de casa de vó (embora minha avó jamais tenha feito), mas buscava uma sensação de conforto através da boca. Aproveitei uma das tão complexas idas ao supermercado e comprei os ingredientes. Não ficou com sabor da idealizada avó da quarentena, mas deu pro gasto. Coincidentemente um amigo me ligou no dia seguinte sedento por estrogonofe e desolado por não achar um decente nas infinitas opções de delivery -sorte a nossa que ele é chef e depois disso colocou o prato no seu próprio delivery (dica @evvai_sp).


Mas me perguntei, o que faz o estrogonofe nos trazer esse conforto? Talvez esse sabor de "lar doce lar" venha da origem centenária da receita: o primeiro estrogonofe provavelmente foi criado no século XVI, pelos Stroganov, uma famosa família aristocrata russa. As primeiras versões do prato eram servidas nas festas dos Stroganov em São Petersburgo, na mesma época que reinava Ivan IV. Pois é, a receita de vó provavelmente já confortou também Ivan, o terrível.


Em 1861, a primeira receita escrita do prato foi publicada no livro russo "Um Presente para Jovens Donas de Casa", como Bife Stroganov com mostarda. Levava cubos de carne, manteiga, farinha, caldo e mostarda sarepska (mostarda agridoce do leste europeu). Mas a receita como conhecemos hoje surgiu alguns anos depois, como uma adaptação do chef francês Charles Briére, que trabalhava para o conde Alexander Stroganov, e adaptou a receita para facilitar a mastigação do patrão que já não tinha alguns dentes - cortou a carne em tiras em vez de cubos. Com a morte do conde em 1891, Briére enviou a receita para a revista "L'art culinaire", onde começou a ganhar fama em outros lugares do mundo.


No século XX, com a revolução russa, famílias que fugiram dos bolcheviques levaram o prato para outros países, incorporando cogumelos, creme de leite e páprica e, assim, a tão famosa receita se consolidou: diretamente dos czares russos para sua avó.

Nas fotos, imagens da família russa Stroganov e do primeiro livro que menciona a receita, "Um Presente para Jovens Donas de Casa" (em russo: Подарок молодым хозяйкам), de Elena Molokhovets (1831-1918)