Canja de Galinha: A história de um dos remédios mais antigos da humanidade

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"No Brasil, jamais faltaram adeptos ilustres da canja. Entretanto, ninguém lhe devotou tanto apreço quanto D. Pedro II. Ele a saboreou milhares de vezes nos 66 anos de vida." R. Magalhães Júnior. Artur Azevedo e Sua Época, 1953.
Pão e (provavelmente) Sopa, afresco de Pompéia.
Pão e (provavelmente) Sopa, afresco de Pompéia.

Outro dia fez 8ºC em São Paulo, um frio tão penetrante e inusual que passei todo este gélido fim de semana debaixo do cobertor, abraçando meu cachorro e pedindo um monte de delivery. Depois de algumas (boas) temporadas de uma série cafona demais para ser mencionada, perdi totalmente a hora das entregas de comida e me rendi a uma canja que tinha na geladeira - dessas contribuições que mãe manda pra gente às vezes (vulgo, alguns restos deliciosos da casa dela e que, desta vez, alguém provavelmente estava gripado por lá).


Na hora em que vi a canja, minha primeira reação foi de repulsa, algo tipo, eca, comida de doente, insossa, sem graça - não era o que eu queria para uma madrugada de diversão me acabando no Netflix. Mas foram poucos minutos até o cheiro do frango cozido, da cebola, do louro e do arroz transformarem meu apetite da água pro vinho: Que delícia canja de galinha de mãe! - e vale ressaltar que a canja nem foi feita pela minha mãe, digamos que ela orquestrou a feitura da sopa e, mesmo assim, tomar esta canja foi um abraço, foi ficar curado, sem mesmo estar doente.


Da gripe à dor de barriga, no Brasil a comida indicada para enfermidades é canja de galinha. Mas este conceito é milenar: a canja é considerada um dos remédios mais antigos da história do homem.

Escola de Bruges, século XVI. Círculo de Gérard David.
Escola de Bruges, século XVI. Círculo de Gérard David.

A água de cozer arroz era usada desde a Roma Antiga como um potente remédio contra a malária. Nas Odes de Horácio, de 23 a.C. e na História Natural de Plínio, publicada entre 77 d.C. e 79 d.C., este cozido era conhecido por suas propriedades terapêuticas e medicinais. Até meados do século XVII o primo da canja era um caldo grosso de arroz sem sal, muito usado para curar doenças. Mas a receita similar à que conhecemos hoje nasceu na Índia, e era chamada de “pez”ou “peya”, “bom para beber” em sânscrito. Mais tarde passou a ser conhecida por“cañji”, ou “arroz com água”, sendo muito consumida na região de Goa - colônia portuguesa de 1510 a 1961, por onde chegou no Brasil.


A primeira menção escrita sobre a canja está no livro “Colóquios dos Simples e Drogas da Índia”, do naturalista e médico judeu português, Garcia da Orta (1501-1568), lançado em Goa em Abril de 1563: "Nestes dias damos a comer ao enfermo leite azedo misturado com arroz, e franguos delidos em agoa deste arroz (a que elles chamão canje)" [sic]

Os portugueses incorporaram a galinha na receita, e assim, quando chegou no Brasil, a canja ganhou versões com aves nativas da Mata Atlântica, como a jacutinga, o macuco e o jacu, tornando-se uma queridinha da família real e, rapidamente, tomando conta dos cardápios das festas e jantares da elite brasileira.


"A beleza do bicho não impediu que os portugueses, ao chegarem ao Brasil, descobrissem imediatamente as qualidades gastronômicas da ave – “maior que nenhuma galinha de Portugal” –, que os índios gostavam de preparar assada ou moqueada. Logo, o peito carnudo do macuco começou a ser muito apreciado também além-mar. Durante o Império, a receita mais difundida foi a canja." Cíntia Bertolino, revista Piauí, 2015.


Francisca de Bragança, Princesa de Joinville, de luto pelo sogro, o rei da França Louis Philippe I, em 26 de agosto de 1850
Francisca de Bragança, Princesa de Joinville, de luto pelo sogro, o rei da França Louis Philippe I, em 26 de agosto de 1850

Francisca de Bragança, filha de D. Pedro I e Maria Leopoldina, ao se casar em Paris com Francisco Fernando Filipe de Orléans (1818-1900), pediu uma canja de papagaio com a maior naturalidade durante a cerimônia, deixando a corte francesa completamente chocada. Mas quem gostava mesmo de canja era seu irmão Pedro II - seu prato predileto. O imperador gostava tanto de canja que a comia diversas vezes ao dia, inclusive nos eventos sociais e no teatro, em que devorava canja de macuco, sua preferida, entre o segundo e o terceiro ato, intervalo que durava, claro, o tempo do imperador raspar o prato.

Pedro II, 1883. Acervo FBN.
Pedro II, 1883. Acervo FBN.

D. Pedro II, além de uma dieta tediosa, tinha a fama de comer muito rápido e apenas beber água com açúcar. Pois é, nem de vinho ele gostava. Mas a canja caiu no gosto do povo, e passou a ser chamada nos cardápios da cidade de "Sopa do Imperador" ou "Canja à la brésilienne" – na época tudo que tinha nome francês era chique.

sopeira do serviço de D. Pedro II. Porcelana do Palácio de São Cristóvão. Acervo Museu Mariano Procópio.
Sopeira do serviço de D. Pedro II. Porcelana do Palácio de São Cristóvão. Acervo Museu Mariano Procópio.
Mary del Priore conta em Condessa de Barral – a paixão do Imperador, de 2006, que: “No menu, sempre uma canja. A comida era ruim, não se tomavam vinhos e o imperador engolia a refeição em segundos. Não havia a ‘arte da conversação’ tão prezada no exterior. Não só os serviços – ou seja, a sucessão de pratos – era praticamente ignorada, mas os empregados estavam sempre mal vestidos. Nem gourmet, nem sommelier, o imperador só gostava de doces: mães-bentas, suspiros e goiabada. Quanto à atividade física, considerava-a quase desprezível. Não gostava de caçar nem de matar animais. Menos ainda de caminhadas que o levassem a “ruminações” ou de jogos de bola. Para uma vida completa bastava, segundo ele, ‘alimentar os sentimentos do coração e os pensamentos do espírito”.
Canja à la brésilienne em um menu de 22 de Julho 1889 da coleção de D. Pedro II
Canja à la brésilienne em um menu de 22 de Julho 1889 da coleção de D. Pedro II

Potage: Canja à la brésilienne. Menu de 1886 da coleção de D. Pedro II
Potage: Canja à la brésilienne. Menu de 1886 da coleção de D. Pedro II

Canja de Gallinha, c.1889. Coleção de D. Pedro II
Canja de Gallinha, c.1889. Coleção de D. Pedro II

A canja ganhou diversos significados ao longo do tempo. Além da milagrosa “canja da vovó”, novos usos foram surgindo. A expressão“dar uma canja”, por exemplo, surgiu no final da década de 1960, no Clube dos Amigos do Jazz, o CAMJA, na esquina da rua Estados Unidos com Antilhas em São Paulo. O bar era repleto de instrumentos, e os músicos que passavam por lá sempre davam uma “canjinha”.


"Ser canja", é ser muito fácil. Canja é um clássico grito de torcida, “É canja, é canja, é canja de galinha … arruma outro time pra jogar na nossa linha”, música que surgiu nos anos 1980 nos jogos colegiais, ganhando uma versão, mais tarde, na voz da rainha dos baixinhos.


E como já dizia Jorge Ben: "Olha aí meu bem, prudência e dinheiro no bolso, canja de galinha não faz mal a ninguém"


Algumas versões de “canja” pelo mundo:




Congee asiático

Congee é uma sopa bem densa, quase um mingau, feito com arroz cozido por bastante tempo na água, servido como café da manhã em muitos lugares na Ásia. Além de sozinha, pode-se adicionar carne, frango, legumes e temperos em seu preparo. (Foto: China Sichuan Food)







Sopa Avgolemono da Grécia

Uma sopa que leva o clássico molho grego avgolemono, feito de gema de ovo e limão, misturado em um caldo de frango e arroz ou orzo. (Foto: Marcus Nilsson / Epicurious)









Sopa de pollo a la mexicana

Conhecida como o remédio para todos os maus, a canja mexicana é feita com frango, arroz branco, aipo, coentro, salsa, hortelã, abacate, limão, pimenta, alho, cebola e por aí vai... (Foto: Revista Mía)








Babaw do Cambodia

Sopa khmer feita com frango, barriga de porco, arroz, gengibre, molho de peixe, broto de feijão, açúcar, limão, pimenta. (Foto: Holistic Budo)










Terbiyeli Pirinçli Tavuk Çorbası (Sopa de arroz temperado), em turco

Conhecida na Turquia como a sopa para ficar forte, é feita de caldo de frango com arroz, peito de frango, gema de ovo e limão. (Foto: Yemek.com)

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