Banquetes barrocos excĂȘntricos
- Katherina CordĂĄs
- May 19, 2019
- 4 min read
Updated: May 22, 2019
tempo de leitura: 4 minutos.
Talvez pelo fervor criativo do dia a dia renascentista, talvez pela intensa dramaticidade barroca alguns anos depois... o fato Ă©, a imaginação rolava solta nos banquetes dos sĂ©culos XVI e XVII. Algo entre festa e teatro, estes mega jantares eram adornados com cenografias lĂșdicas, construçÔes gastronĂŽmicas inventivas e produçÔes minuciosas que levavam dias para serem preparadas. O rendez-vous favorito de muitos artistas, os banquetes misturavam comida, arte, mĂșsica, arquitetura e teatro em uma sĂł experiĂȘncia que visava cativar todos os sentidos da forma mais abrangente possĂvel.

A âCompanhia do CaldeirĂŁoâ, grupo fundado em Florença no inĂcio do sĂ©culo XVI por diversos artistas, organizava jantares em que cada membro deveria levar um prato bastante inventivo (por via de regra), que circulava ao redor da mesa passando de boca em boca, para que todos provassem de tudo. Os pratos tinham que ser criativos o bastante para que nĂŁo houvesse repetiçÔes â gafe gravĂssima acompanhada de punição aos tais cozinheiros monĂłtonos.
AnfitriĂŁo da vez, o pintor Francesco Rustici (1592-1625) criou todo um cenĂĄrio lĂșdico para um dos jantares da companhia, construindo um caldeirĂŁo gigantesco (usando uma tina) e montando a mesa de jantar dentro deste caldeirĂŁo, onde os convidados estariam, supostamente, sendo cozidos. Os pratos foram posicionados ao redor do caldeirĂŁo sobre os troncos (!) de uma tecnolĂłgica ĂĄrvore que se erguia e girava, levando cada prato de um comensal a outro, diversas vezes ao longo do jantar, atĂ© completar todo o cĂrculo. #produção

O prato de Rustici era uma torta recheada em forma de caldeira com dois galos capĂ”es no topo da massa, literalmente fantasiados de humanos, usando adornos comestĂveis. Sua idĂ©ia era fazer uma representação da lenda mitolĂłgica de Ulisses rejuvenescendo o pai em um banho milagroso. Realmente uma criatividade fervorosa â dificĂlimo dois pratos iguais.
JĂĄ o pintor florentino Andrea del Sarto (1486-1530) apresentou um prato mais arquitetĂŽnico, em forma de templo, com colunas feitas de linguiça com capitel de parmesĂŁo, piso de mosaico colorido feito com uma bela variedade de gelatinas, beiradas de açĂșcar, uma tribuna reluzente toda trabalhada no marzipĂŁ. Segundo Giogio Vasari em âAs Vidas dos mais Excelentes Pintores, Escultores e Arquitetosâ escrito em 1550, o pĂșlpito fechava com chave de ouro o prato (ou a escultura): "de vitela; com um livro de lasanha, cujas letras e notas a serem cantadas eram feitas de grĂŁos de pimenta; e os que cantavam no pĂșlpito eram sabiĂĄs de bico aberto e eretos, com certas camisolas Ă guisa de cotas feitas de tripa fina de porco; e atrĂĄs deles, como baixos, estavam dois pombos gordos, com seis aves que faziam o soprano.â

Da âCompanhia do CaldeirĂŁoâ nasceu a âCompanhia da Colherâ com nĂșmero maior de membros. Esta organizava os excĂȘntricos banquetes ainda mais elaborados, com grandes cenĂĄrios, figurinos, engenhocas gastronĂŽmicas e tendĂȘncias megalomanĂacas.
Os companheiros da colher tinham uma particular preferĂȘncia por banquetes Ă fantasia, existindo algumas mençÔes a eventos em que todos se vestiam segundo um tema. Um jantar oferecido pela dupla de pintores Bugiardini (1475 â 1577) e Rustici (1552 â1641) instruĂa que todos os convidados viessem vestidos de pedreiros ou ajudantes braçais. Ao chegarem, se depararam com um projeto de edifĂcio e, ao lado, os materiais necessĂĄrios para sua construção. Massas de lasanha para as paredes, ricota com açĂșcar era o cal, queijo ralado com pimenta substituĂa a areia e confeitos faziam as vezes do cascalho. PĂŁes eram tijolos e carne de vitela enrolada em sua tripa faziam as vezes de colunas. Azulejos, frisos, beirais, detalhes dos mais diversos chegavam aos montes, todos feitos de comida para esta mega construção gastronĂŽmica.

Alguns anos depois, no começo do sĂ©culo XVII, o cozinheiro barroco Robert May (1588-c.1664) ficou famoso com um de seus jantares, em que serviu uma torta em formato de navio de guerra, tĂŁo grande que para entrar no salĂŁo precisou de uma carroça enorme para o transporte. A embarcação, feita de massa de torta, mirava seus canhĂ”es para um castelo de papelĂŁo recheado dos mais diversos doces. No centro do castelo um cervo comestĂvel gigantesco recheado de vinho tinto que, a certa altura, levou um tiro de uma dama da corte, jorrando âsangueâ tinto por todo salĂŁo. Instaurou-se a batalha comestĂvel: os canhĂ”es do navio acertavam o castelo que derramava guloseimas pelo chĂŁo. As damas da corte, para abafar o cheiro da real pĂłlvora usada nos tiros, jogavam cascas de ovos recheadas de perfumes uma nas outras, como parte da encenação de guerra. O ataque finalmente chegou ao fim quando um pajem destampou uma torta liberando a entrada de rĂŁs e pĂĄssaros vivos que pularam pelo salĂŁo fazendo as mulheres saĂrem correndo para cima das mesas e cadeiras num grande momento de, aparentemente, muita diversĂŁo.

Esta teatralidade a flor da pele, rebuliço permitido e fartura alimentĂcia remetia aos comensais histĂłrias do aclamado PaĂs da Cocanha, um mito medieval que se refere a um lugar luxuoso onde ninguĂ©m trabalha e todos tem tudo de forma fĂĄcil e confortĂĄvel. A comida era abundante, assim como o vinho e o sexo. Os rios eram de leite e as colinas de queijo, que tambĂ©m chovia aos montes do cĂ©u (amĂ©m!). Um poema francĂȘs do sĂ©culo XIII chamado "A Terra da Cocanha", descreve um lugar onde "as casas eram feitas de cevada, as ruas pavimentadas com doces e as lojas forneciam mercadorias de graçaâ. Uma terra de contrĂĄrios, onde as regras sociais eram desafiadas, os tabus sexuais libertados e a comida e bebida abundantes. Cocanha era um paĂs onde todos os desejos de uma sociedade camponesa medieval, miserĂĄvel e faminta, se realizavam e, em outros tempos, uma inspiração para criativas, elaboradas e excĂȘntricas comilanças barrocas.

