A história do Delivery



Escrevo esse texto num final de tarde de domingo enquanto conto as horas para pedir meu delivery. Uma pizza, meia marguerita, meia pepperoni, que será devorada em frente a um filme bobo qualquer de streaming, seguido de sorvete que pedi na 6a feira e, para finalizar, balas de ursinho variadas que comprei no supermercado da semana - também feito através de um aplicativo de entrega, claro.


De uns tempos pra cá, a grande maioria das coisas que entram nessa casa são escolhidas pela telinha e entregues na portaria - e quando o porteiro está de bom humor, ele ainda coloca no elevador pra mim - não preciso nem me desgastar nessa longa viagem que se tornou o percurso do 15o andar até o térreo.


Esse hábito ganhou força com a pandemia, onde as entregas de comida tiveram um aumento inédito: o número de usuários nas plataformas de delivery tiveram expressivos 975% de aumento segundo uma pesquisa publicada no jornal da USP. Um levantamento publicado na mesma matéria, mostra que o Brasil foi responsável por quase metade dos números de pedidos de deliverys em toda a América Latina em 2020 - 48,77% das entregas de comida foram feitas por aqui, seguidas pelo México com 27% e Argentina com 11%.


Embora a tecnologia pareça essencial para aquela pizza chegar em minutos até a mesa da sua casa, os deliverys de comida já existem faz tempo. Muito antes dos aplicativos e até mesmo dos pedidos feitos por telefone (imagina que desespero, ter que ligar pra pizzaria e realmente falar com alguém do outro lado da linha), a comida para viagem existe desde tempos muito remotos.


Tudo começou com opções antigas de take away: Dos thermopoliums romanos, stands normalmente decorados com afrescos que vendiam carnes, grãos e vinho embrulhados para a viagem, às feiras astecas, as chamadas Tianguis, que disponibilizavam pratos "to go" como tamales, entre outras opções. A comida para viagem tem uma história longa que facilitou a vida de comensais ao longo de muitos séculos…

Nas fotos, ilustrações do séc. XVI de refeições astecas, vendedores de tamales e termopólios em Pompeia e Herculano.


Dos "takeaways" romanos, os thermopoliums, às feiras astecas com tamales para levar, a comida para viagem já existia no passado, mas demorou alguns séculos para chegar diretamente até a casa das pessoas.


Antes do prato pronto, quentinho e embrulhado, era comum a entrega de ingredientes a domicilio. Frutas, verduras e carnes eram entregues na porta das famílias mais abastadas, como quem faz um supermercado por aplicativo nos dias de hoje. No livro Ménagier de Paris, um tratado francês de economia doméstica escrito em 1393, uma vasta lista de açougues com serviço de entrega tinha o propósito de facilitar a vida da responsável do lar na hora de fazer suas compras semanais.


Mas o primeiro registro de entrega de uma comida pronta para consumo foi em 1889, quando os reis italianos Humberto I e sua esposa, Margherita de Sabóia, decidiram provar alguns dos pratos de seu povo, a fim de variar um pouco as receitas francesas que imperavam nos castelos da época. Assim, encomendaram com o pizzaiolo Raffaele Esposito, da Pizzaria di Pietro e Basta Cosi, que entregasse diretamente em seus aposentos três pizzas diferentes: uma com lardo e caciocavallo, outra com anchovas e a terceira com tomate, mozzarella e manjericão. Não é difícil imaginar a preferida da rainha Margherita que, com sua declarada aprovação, fez o prato ganhar status ao redor do país.


Nas fotos, ilustrações de açougues do séc. XIV, ilustração do pizzaiolo Raffaele Sposito e imagem da Rainha Margherita de Sabóia.


A entrega de comida foi um movimento global que começou ao mesmo tempo em vários locais, atrelada à modernização e, com ela, às novas rotinas de trabalho que foram surgindo.


Além da entrega da 1a pizza da história para a famigerada Rainha Margherita em 1889, outros lugares do mundo adotaram a entrega de comida diretamente na casa do freguês. No mesmo período, Mahadeo Havaji Bachche, um empresário indiano, decidiu começar uma empresa para entregar almoços prontos a trabalhadores de Mumbai. Assim nasceu o Dabbawala (“carregadores de marmitas”, em hindi), um serviço de entrega de comida que começou na época com 100 homens, e funciona até os dias de hoje com mais de 5000 entregadores de marmitas - quem já assistiu ao filme Lunchbox?


No Japão, no final do período Edo, a entrega de comida a domicílio também se popularizou - os demae, ou entregadores de comida, empilhavam nos ombros inúmeras caixas recheadas de sobas e ramens para entregar a famintos por um almoço pronto e prático. Com o surgimento das bicicletas, a prática se popularizou e seguiu ativa até os anos 60, quando foi substituída por entregas em motos.


Durante a segunda guerra mundial a entrega de comida também ganhou seu espaço. Buscando abrigo, segurança e, muitas vezes, um teto, a prática de entregar refeições direto na porta das pessoas ganhou força, sendo incentivada até mesmo por alguns governos, como na Inglaterra, uma forma de ajudar militares e civis em meio à guerra no país. Com o fim da guerra, a ideia foi adotada pelo setor privado estabelecendo, de uma vez por todas, a estimada pratica do delivery.


A televisão também ajudou na consolidação da comida em casa: nos Estados Unidos dos anos 50, ficar em casa assistindo televisão ganhou um lugar especial no coração dos americanos, estimulando restaurantes a adotar cada vez mais a opção de entregar seus pratos no conforto do lar. Desde então, o delivery ganhou o mundo, o coração e o estômago dos comensais caseiros que não abrem mão da praticidade das refeições encaixotadas.