A história das Feiras de Rua


Pintura de Pieter Aertsen, Holanda, séc. XVII


Parte I


Anarquistas, libertárias, populares e acessíveis: as feiras de rua sempre foram lugares de trocas, facilitadores culturais, retratos descontraídos da alimentação de uma região.


A palavra feira vem do latim, feria, que significa dia de festa. As tradições culturais das feiras refletem sua história. Um espetáculo em forma de mercado, uma bagunça organizada, o imaginário cenográfico das barracas, da abundância de produtos, das frases improvisadas - e muitas vezes inoportunas - de feirantes xavequeiros bons vendedores, fazem parte dessa herança cultural que transforma as feiras em um espaço lúdico, atemporal e familiar.


"Fazer-se feirante é [...] estar na rua e fazer dela um outro lugar durante um determinado período do dia, ocupar esse espaço de circulação anônimo dos habitantes da cidade e transformá-lo em um espaço de intimidade e sociabilidade, de encontros e de trocas..." disse Viviane Vedana em seu livro "Fazer a feira e ser feirante: a construção cotidiana do trabalho em mercados de rua no contexto urbano".


As feiras de rua como existem hoje nasceram com as transformações da sociedade feudal europeia, entre o século X e XI. Com a decadência feudal, um crescimento comercial e urbano acarretou o crescimento do número de habitantes que compunham os burgos. Isso gerou, não apenas mudanças nos sistemas de produção agroalimentar, mas também no abastecimento e distribuição desses alimentos. Assim, novas profissões surgiram, mais especializadas e regulamentadas , garantindo a exclusividade da produção: padeiros, charcuteiros, açougueiros, peixeiros e por aí vai… Foi nesse momento que se iniciou uma transposição do que era uma economia baseada apenas na subsistência, para uma economia de mercado: o eixo rural e o urbano se tornaram complementares, uma vez que surgiram cada vez mais trocas comerciais organizadas e regularizadas.


E foi assim que nasceram as grandes feiras. Inicialmente localizadas em entroncamentos de grandes rotas comerciais, as feiras aconteciam uma ou no máximo duas vezes ao ano. Grandes eventos que demoravam dias para serem planejados, organizados e realizados, eram imensos, construídos com grandes instalações onde se vendiam produtos por atacado das mais diversas partes do mundo. As feiras que conhecemos hoje, são muito diferentes das da época e se assemelham ao que então eram os mercados locais: semanais, de pequeno porte e dedicados ao comércio de produtos locais de origem agrícola, focados em abastecer apenas as necessidades do dia a dia.


As grandes feiras normalmente aconteciam simultaneamente aos principais eventos católicos, para desgosto da Igreja e eram vistas por esta como locais imorais e perversos. Era comum ver artistas realizando performances, espetáculos de teatros e apresentações musicais com linguagens subversivas, por isso desagradavam o Clero que estava no auge naquela época.


Como acontece hoje, intermediários que fazem as mediações entre as diferentes pontas do comércio já existiam, aproveitando-se de crises na produção, dificuldades de transporte e da confusão quanto ao regulamento, para ganhar um dinheiro fácil. Eram comuns também os escambos: muitos feirantes exigiam pagamento em mercadorias em vez de dinheiro, uma vez que a economia monetária era frágil nas áreas rurais medievais.


Durante o Renascimento, as feiras de rua se tornaram locais não apenas de comercialização, mas também de manifestações políticas, principalmente quando se queria reivindicar mudanças quanto ao comércio de alimentos . Com o tempo, as feiras se consolidaram pelas conexões sociais, pela troca de informações, notícias e política, além de representarem um centro que concentrava as mais diversas transações comerciais e culturais .


As feiras ao longo da história mantiveram sua identidade milenar, como locais de comércio vivo, dinâmico, sempre, alegres e insubordinadas, criavam vínculos entre pessoas e produtos, aproximando o imaginário urbano e o rural.


Parte II

"Moça bonita não paga, mas também não leva".


Pastel, caldo de cana, nacos de frutas maduras na ponta da faca. Biscoitos de polvilho, buchas vegetais, peixes frescos e pés de galinha. Seja na Xepa ou no horário nobre, de carrinho de metal ou sacola listrada de nylon, não existe paulistano que não ame uma feira. Elas estão no nosso cotidiano, na memória e no imaginário dos habitantes da terra da garoa, do século XV até os dias de hoje.


Em meados do século XV já existia na cidade de São Paulo um princípio de feira livre urbana: documentos da época mostram tentativas de oficialização do comércio de "gêneros da terra, hortaliças e peixe no terreiro da Misericórdia". Já no século XVI, surgiram locais dedicados à comercialização de peixe, como a ponte do Carmo ou a Rua de São Bento, além de certas modalidades de feiras fora do perímetro da cidade, nos locais de pouso de tropas, o que se tornou, mais tarde, o Mercado Caipira.


No século XIX, a pequena São Paulo com menos de 50 mil habitantes, era abastecida por duas regiões em seu entorno, em forma de dois círculos concêntricos. O primeiro e de menor raio, chamado de "cinturão das chácaras", ofertava frutas, legumes, verduras e ovos produzidos nas chácaras da região. A produção de frutas no período era muito mais significativa que a de legumes e verduras, que vieram a ganhar protagonismo apenas com a chegada dos imigrantes. Laranjas, jabuticaba, ameixas, pêssegos e figueiras ficavam disponíveis nessas feiras, junto com, e em menor quantidade:acelga, couve, beldroega, chicória, serralha, taioba, caruru, além de ervas para usos medicinais como erva-cidreira, poejo, sabugueiro e erva-doce. Já o segundo cinturão da cidade, o "cinturão caipira" era abastecido pelas fazendas e sítios, fornecendo leite e cereais aos primitivos habitantes da São Paulo da época.


Outro tipo de comércio do período era exercido especialmente por mulheres de classes baixas ou escravizadas, as chamadas "quitandeiras", que vendiam produtos de forma ambulante pela cidade. Frutas, verduras, milho cozido, doces, biscoitos, sucos, aluás, garapas, pinhões assados, sal, toucinho, frango, peixes, farinhas, queijos, café, entre muitos outros, vendidos em bancas, cestas e tabuleiros. As melhores quitandeiras ganharam reputação na época, ficando famosas entre os consumidores urbanos que as chamavam por nomes associados a suas particularidades : Nhá Maria Café era conhecida por suas empadinhas de farinha de milho recheadas de peixe, Maria Punga por seus bolos de fubá e broinhas de polvilho e Nhá Umbelina, que atendia os estudantes do Largo de São Francisco, por seus pastéis e doces - tudo, sempre, com café para acompanhar. Por sinal, os pastéis da época nada se assemelhavam aos pastéis de feira famosos até hoje na capital paulista e que ganharam fama no século XX. Aqueles, eram cozidos ou assados, de formato quadrado recheado com miúdos de vaca, pombo, galinha ou outros tipos de pássaros.


As vendas ambulantes de alimentos foram tradicionais não apenas em SP, mas também no Rio de Janeiro e em Salvador… A diferença era que, enquanto nas outras cidades os produtos comercializados eram normalmente de tradição africana, em São Paulo, se comercializava produtos típicos da alimentação caipira.


Com a proclamação da independência do Brasil em 1822, as Câmaras Municipais foram incumbidas de construir espaços públicos para o abastecimento de alimentos nas cidades. Assim, em 1836, foi construído o primeiro mercado alimentar urbano da cidade, seguido de diversos outros ao longo do século pensados para suprir a carência alimenticia da população.



Parte III


A Feira II, 1925 Tarsila do Amaral


Na passagem do século XVIII para o XIX, movimentos modernos impactaram o mundo. No Brasil, essas novas linguagens e conceitos da Belle Époque dominaram as ruas das capitais, que buscavam maior organização e sofisticação. Isso também se refletiu nas feiras livres das cidades. Em São Paulo, as feiras ganharam novas espacialidades que apresentavam um caráter mais burguês e urbano, perdendo muitas das características caipiras que tinham até então. Produtos importados trazidos e cultivados por imigrantes - especialmente franceses que estavam "na moda" ganharam força e a preferência dos consumidores, como flores, vinhos, jóias, louças e porcelanas de além mar.


Nas primeiras décadas do século XX, a população paulistana praticamente dobrou. Isso causou, não apenas uma demanda maior de alimentos mas, também, uma busca por mais qualidade e diversidade. A sociedade da época tornou-se mais heterogênea, plural, multicultural (com grandes diferenças sociais) e se caracterizava pela busca de um consumo mais seletivo.


Consequência de diversos fatores, entre eles a Primeira Guerra Mundial , o cenário econômico estava comprometido. Isso gerou uma falta de produtos básicos o que elevava os preços às alturas. Assim, movimentos trabalhistas surgiram exigindo melhores condições de vida, de trabalho e de barateamento dos alimentos. Em resposta às reivindicações dos trabalhadores, foi criada oficialmente, em 1913, a primeira feira livre - que eliminaria os atravessadores e, com isso tornaria os alimentos mais baratos e acessíveis. O tema foi polêmico e incomodou muita gente na época - historiadores até hoje discutem de onde e por quem surgiu essa proposta. De qualquer forma, o Estado de São Paulo tomou a dianteira na organização das feiras livres urbanas, com produtos que não estariam sujeitos a impostos, facilitando sua comercialização.


Embora as feiras livres já existissem de maneira informal na cidade, esta foi a primeira vez que ela seria regularizada e reconhecida pelo governo - a primeira feira livre regularizada se deu no largo General Osório, com 26 feirantes, realizada às segundas e quintas feiras. Com o tempo inúmeras outras surgiram, principalmente no Centro da cidade e, mais tarde, foram se espalhando pelos demais bairros. As feiras, porém, não faziam sucesso com as camadas mais abastadas da população que as consideravam insalubres e perigosas. No jornal Folha da Manhã de 29 de novembro de 1925, uma nota sobre as nascentes feiras livres da capital evidenciava essa visão:


"Os mercadores [...] transportam a sua mercadoria em vehiculos sujos que exhalam horrivel fedentina. Cumpre aos fiscaes de hygiene olhar por isso, bem como pelo estado da mercadoria exposta à venda, que não raro, apresenta signaes evidentes de deterioração. Si uma fiscalização severa não póde ser exercida nesses mercados livres, [...] malhor será extinguil-os, isso a bem da saude publica. [...] São as feiras livres também pontos de reunião de ociosos e vagabundos, meninos bonitos empoados e de paletós cintados, almofadinhas de toda casta, verdadeiros pelintras, que azuernam os ouvidos das senhoritas dirigindo-lhe phrases melosas e balofas, estylo futurista. [...] Outro inconveniente das feiras, e esse bem grave, é sua condição anti-hygienica. [...] Por mais que se esforcem e se esfalfem esfregando o cimento não conseguem lixeiros, gastando litros e litros de creolina, abafar o mal cheiro.[...] No Lago do Arouche, por exemplo, as famílias, terminadas as feiras, têm receio da fedentina que dura horas e horas."


Vinte anos após a regularização das feiras livres na cidade, feirantes passaram a ser obrigados a tirar licenças de profissão e localização das barracas na feira. A partir de 1948 um boom de feiras livres se deu pela cidade, em decorrência de uma lei que determinou a instalação de, no mínimo, uma feira semanal em cada subdistrito ou bairro do município.


Ao longo das últimas décadas, muitas iniciativas surgiram contra as feiras livres nos anos seguintes: lixo nas ruas, confusões, falta de comprometimento de feirantes, burocracias governamentais, surgimento dos supermercados e sacolões, tudo isso colocou a existência das feiras livres em cheque. Mas finalmente, no início dos anos 2000, após um século de sua regulamentação , as feiras passaram a atrair cada vez mais visitantes, não apenas por seu caráter econômico, mas, e principalmente, por sua atmosfera lúdica e estéticamente interessante. Pelas suas trocas sociais e culturais que se dão em meio às barracas coloridas, a variedade de produtos e aos gritos dos feirantes. E é esse caráter afetivo, rotineiro e insubstituível na memória e cotidiano de um povo que mantém as feiras livres vivas e borbulhantes até os dias de hoje: das feiras feudais aos pastéis do Pacaembú.


Feira do Cambuci, 1920. Alfredo Volpi