A história da Porcelana

Parte I: China

Estou com um certo bloqueio para escrever nessas últimas semanas - provável efeito colateral dos tempos trágicos que estamos vivendo. Mas, outro dia, abrindo uma gaveta dessas esquecidas no topo do armário, com abarrotadas toalhas de mesa antigas a ponto de mofar, senti aquele cheiro que dobra a memória: fui pro antigo armário de porcelanas da casa da minha avó. Eram duas portas compridas até o teto, recheadas de prateleiras que abrigavam toda história da família em forma de pratos, vasos, bandejas e jogos de chá com direito a boleiras e jarrinhas de leite. Peças que vinham da China, da Inglaterra, da Tchecoslováquia. Hoje, assim como a família, cada peça tomou seu rumo e ganhou novos lares entre filhos, noras e ex-noras - além das poucas (e boas) peças que consegui juntar pra mim na lábia.


As porcelanas estão presentes nas mesas das mais diversas famílias do mundo há séculos. Criada há quase dois mil anos na China durante a Dinastia Han (206 a.C. até 220 d.C), as primeiras formas de porcelana provavelmente tiveram início em algum forno que ultrapassou a temperatura habitual para queima de cerâmica.


Mas a fórmula da porcelana como conhecemos hoje foi criada entre o século VII e X, durante a dinastia Tang. Conhecida como Yao, a mistura e queima do Feldspato - um mineral presente em cerca de 60% da crosta terrestre - vitrifica e impregna os poros do Caulim - conhecido como argila da China - criando o que os chineses apelidaram de "a cerâmica que ressoa quando bate".


Durante a dinastia Yuan, no século XIII, mestres ceramistas começaram a pintar suas peças com óxido de cobre, criando os tradicionais desenhos vermelhos das porcelanas chinesas.


Com o tempo, comerciantes persas apresentaram a eles o pigmento de óxido de cobalto, usado desde 3a.C. para criar pinturas azuis em esculturas egípcias e jóias babilônicas. Daí nasceu a tradicional porcelana azul e branca, que se tornou um dos maiores símbolos de decoração do mundo até os dias de hoje...


Fotos: trabalho da artista coreana Yee Sookyung (1963), que constrói esculturas a partir de fragmentos de cerâmicas descartados emendados com ouro (ou Kintsugi, em japonês).


Parte II: Europa


Grandes coleções de porcelana foram criadas no final do século XVII. Uma febre pela técnica, tornou a porcelana objeto de desejo entre reis e nobres de toda Europa e Oriente Médio, fazendo com que as peças importadas da China fossem sinônimo de riqueza, prestígio e bom gosto. O intenso comércio além mar do século XVI, fez com que a porcelana se tornasse moda e um dos maiores artigos de luxo transportado nos navios, uma vez que ainda não se sabia reproduzir a técnica no Ocidente.


Um dos principais mercadores europeus da época, o italiano Marco Polo (1254-1324) levava à Europa porcelanas produzidas em Jingdezhen, no sudeste da China, cidade conhecida até hoje como a “capital da porcelana chinesa”. O termo porcelana, inclusive, foi cunhado por ele que comparou a técnica ao molusco porcellana, que tem a concha branca e brilhante.


A tamanha popularidade na Europa fez com que surgissem inúmeras tentativas de imitar a tal massa translúcida chinesa, até que, no século XVI, uma fórmula à base de argila e vidro (com consistência mais mole do que a chinesa) foi criada em Florença.


A fábrica experimental de porcelana da emblemática família Médici, instalada em 1575 no Cassino de San Marco, em Florença, foi uma das primeiras a produzir peças com a porcelana de pasta mole europeia. Anos depois, em 1673, a primeira fábrica francesa de porcelana abriu em Rouen, na Normandia - hoje existem apenas 9 peças produzidas por ela no mundo.


Finalmente em 1708, os químicos alemães Friedrich Bottger e Von Tschirnhaus conseguiram desvendar a fórmula asiática, surgindo então inúmeras fábricas de porcelana espalhadas pelo continente.


A moda agora era ter coleções da mesma porcelana para todo o serviço do jantar - o primeiro jogo completo europeu de que temos notícia foi criado em 1731. A demanda também por jogos de chá cresceu muito com a entrada de bebidas exóticas, como o café, o chá e o chocolate e, com o tempo, os mais variados desenhos e temas começaram a ser representados nos jogos de serviço dos grandes castelos, criando, assim, estilos e linhas diferentes ao redor da Europa.

Foto: Linha de pratos Versace Home de 1996.


Parte III: Brasil


Não existe grande tradição de porcelana no Brasil. Objetos cerâmicos já eram produzidos por povos nativos e caíram na graça dos colonizadores, mantendo a tradição artesanal por anos a fio. Mas, quando se fala de porcelana especificamente, a verdade é que, por muito tempo, a maioria das louças do país eram importadas e seguiam a moda instaurada na Europa no sécXVII.


Com a vinda da Família Real em 1808, inúmeras peças de porcelana chegaram ao país. Com a disseminação da técnica chinesa na Europa, não demorou muito para as famílias aqui instaladas seguirem a pompa portuguesa e importarem peças para compor suas mesas.


Com a 1a guerra, a produção brasileira se intensificou, uma vez que passou a ser necessário criar fábricas locais que substituíssem as importações. Assim, nasceram inúmeras casas de porcelana, tornando a produção no Brasil uma importante indústria, principalmente na SP do início do sécXX.


A produção de porcelanas na Grande SP foi de larga escala entre as décadas de 1910 e 1940. Com a porcelana sendo produzida por aqui, o público consumidor cresceu: antes reservada à elite, ela se tornou mais democrática e acessível, ganhando características únicas que se diferenciavam da produção além mar.


A principal diferença das porcelanas do país eram as estampas que ganharam motivos mais “nossa cara”: em vez de paisagens de castelos e príncipes europeus, as porcelanas brazucas tinham ilustrações de frutas e flores.

Temas rurais também começaram a predominar. O êxodo rural da metade do sécXX influenciou as ilustrações das porcelanas nacionais, que ganharam estampas bucólicas e cores mais leves. Além disso, hábitos brasileiros influenciaram no tipo das peças produzidas -diferente dos pratos e xícaras, carros chefes da produção europeia, as fábricas de porcelanas de SP criaram uma peça que se tornou hit na época: tigelas.O costume brasileiro de comer em cuias abriu os olhos da indústria que se adaptou à demanda local.


Embora a difusão da porcelana brasileira tenha sido rápida, a partir da metade do século ela caiu no esquecimento. Hoje, pouquíssimas fábricas desta época ainda funcionam no país.

Fotos: Obras do carioca Barrão