A Comida do Divino

Lembranças da Festa do Divino, que aconteceu no começo de junho, em São Luiz do Paraitinga.


A convite da Lano Alto e do Rafa Bocaina, fomos para Catuçaba, conhecer melhor um trabalho que já admirávamos à distância - a belíssima produção artesanal da Lano Alto. Provamos o delicioso queijo causo, o iogurte com kosos diversos, o requeijão de prato destes de comer de colher, a manteiga fermentada, a ricota densa, leve e aerada e o doce de leite que arremata tudo com chave de ouro.


Participamos também da primeira experiência “A Comida do Divino”, promovida pela Lano Alto em parceria com o Rafa e o historiador Ricardo Mattos.


Provamos o afogado, a comida do divino, um prato feito para unificar, nesse dia, toda a população. Distribuído gratuitamente na festa, o Afogado, um ensopado feito de carnes de vaca, traz um respiro, um espaço de exceção, unificando a tudo e todos, pois partilha-se do mesmo prato, não importando classe, gênero, raça ou faixa-etária.


A Festa do Divino acompanha o povoamento de São Luiz do Paraitinga, como contam os caipiras sobre essa folia que "antes tempo era assim". Passada de geração em geração, a festa foi criada originalmente no séc XV em Portugal, como um presente do imperador, que estabelecia um momento de exceção, no qual, naquele dia, todos seriam governadores daquela comunidade. Com isso, criava-se um momento de ruptura com todas as leis e mesclavam-se representações de um catolicismo popular, com influências de perspectivas pagãs.


E assim, com o tempo, a festa tornou-se tradição no Vale do Paraíba, como um momento de compartilhar, de unificar a todos. Uma festa plural, onde cada pessoa da comunidade vem com um propósito, onde cada grupo de cultura popular que ali se apresenta, vem com suas próprias crenças e tradições, em sua própria peregrinação espiritual. Uma festa de músicas, ritmos, danças, fitas e rezas que acontecem simultaneamente, fazendo tudo e todos vibrarem em apenas uma sintonia, seja lá qual for.


Foi lindo ver a força da cultura popular brasileira, que sobrevive assim às intempéries da nossa história. Obrigada @lano_alto e @rafa_bocaina pelo privilégio dessa vivência.