O Tempero da Vida e a moussaka da minha iaiá Fofi

Minha avó Photini me deixou sua receita secreta de moussaka um pouco antes de falecer. Lembro muito dela na janela, em seu prédio no Paraíso, olhando a rua pra nos ver chegar. De seus charutinhos de uva, gordos, bem recheados e do Dantop que comprava e me dava escondido antes do almoço. Mas era sua moussaka que tinha fama na vizinhança. A receita, não compartilhava por nada - o mistério a tornava mais gostosa. Pouco antes de morrer, resolveu revelar alguns segredos. Como boa grega que era, com a morte do meu papu (avô), iaiá Fofi, como a chamava, passou a usar preto, e assim ficou até o final de seus dias. A gente forçava a barra, comprava blusas e vestidos coloridos, ela não queria. Queria ficar de luto pra sempre. Pouco antes de morrer ela nos contou que saiu fugida da Grécia quando era nova: amarrou um lençol no pé da cama, desceu a janela, tomou um navio para o Brasil e veio encontrar seu amor que havia lhe enviado as passagens prometendo uma vida melhor ou, pelo menos, juntos. Corajosa ela. Nunca mais viu a família. Entrou no navio e veio para SP, contra a vontade da mãe que não era a favor do namoro. Até então, ninguém sabia dessa história, digna de filme. A divulgação da receita da moussaka aconteceu uns dias depois. Ela me chamou, me deu um papel pautado de gramatura quase nula e uma caneta bic vermelha e começou a ditar: 3 berinjelas, azeite, leite... e finalmente o segredo foi revelado: um punhado de canela.


Assisti outro dia "O Tempero da Vida", filme grego e turco de 2003 que conta a história de um garoto que aprende sobre os sabores da vida com o avô. Tanto os temperos, quanto povos e culturas distintas, quando misturados, criam novas experiências, sensações e histórias. O filme, apesar dos chavões, me lembrou meus avós, seus costumes e manias. "A vida precisa de um toque de sal para ter graça, de pimenta para ter calor, de canela para ter surpresas", dizia o papu do personagem. Pois é, iaia Fofi sabia das coisas… nada como um toque de canela para gerar curiosidade, muitas vezes, por toda uma vida.