Cubismo Culinário

Talvez como um respiro às ideias de Auguste Escoffier (1846-1935) que estavam em voga na mesma época, o Cubismo Culinário, defendido por Guillaume Apollinaire (1880-1918), propunha jantares descompromissados, que eram verdadeiras experiências artísticas pensadas para provocar reações físicas e sensoriais: sem tantas ordens e regras como as ideias de Escoffier. Batizado de Gastronomismo (gastro-astronomismo), em homenagem ao astrônomo Jérôme Lalande que, segundo Apollinaire, “Todo mundo sabia que comia aranhas e lagartas”, a cozinha buscava criar uma imersão artística e emocional e não apenas saciar a fome - algo instintivo demais para ele. As refeições deveriam ser mágicas, impactantes, trazer sensações físicas e percepções distintas sobre o homem e o mundo. Não é a toa que recomendava comer sem fome, para assim o apetite não roubar a cena das verdadeiras reações físicas.

Foto: Apollinaire por Pablo Picasso, 1905, Paris.


🍽Jantar descrito por Apollinaire em Fantasio de 1913, sobre uma experiência Gastro-astromista:


"Primeiro foram servidos os aperitivos, entre os quais violetas frescas com molho de limão. Depois, peixe de rio cozido em folhas de eucalipto (...). Nossa surpresa foi quando vimos um tubarão aparecer, cuja novidade era o tempero, não com sal e pimenta, mas sim com rapé (...). Foi então que a obra-prima apareceu, uma codorna, embebida em sucos de alcaçuz preparados no dia anterior. As barras de alcaçuz derreteram em fogo baixo, em caldo de galinha. Todos perceberam o caráter sublime desta preparação e houve unanimidade em elogiar a inteligência do chef que imaginara uma aliança tão nova e admirável de substâncias suculentas. (...)A salada estava temperada com óleo de nozes e aguardente. O queijo foi um Reblochon, um delicado queijo Savoyard que adicionamos noz-moscada ralada e, para as sobremesas, havia frutas da estação. Nos limitamos a ter apenas um vinho, de Arbois, e todos ficaram satisfeitos por ter experimentado novos prazeres gastronômicos bastante ousados, mas perfeitamente legítimos (...)." (tradução tosca, mas o conteúdo é esse).

📸 "Le Cubisme culinaire", Guillaume Apollinaire, página de Fantasio, n. 155, 1913.